14/08/2019

Na abertura da ExpoPostos & Conveniência 2019, representantes do setor de combustíveis discutem o futuro do mercado

O primeiro dia da ExpoPostos & Conveniência 2019, o evento mais importante do mercado de distribuição e revenda de combustíveis, lubrificantes e lojas de conveniência, realizado de 13 a 15 de agosto na São Paulo Expo, foi marcado por importantes debates entre especialistas do setor, executivos e representantes do Governo Federal.

Durante a abertura da feira, Leonardo Gadotti, presidente executivo da Plural, ressaltou a importância dos combustíveis para o desenvolvimento do país: o setor é responsável por mais de R$ 150 bilhões em arrecadação de tributos; movimenta mais de 125 bilhões de litros de etanol, gasolina, óleo diesel, através de mais de 150 distribuidoras, 40.500 postos revendedores e 390 transportadores revendedores retalhistas. Em lubrificantes, o setor movimenta 1.3 bilhões de litros por ano, utilizando as mais avançadas tecnologias, por meio de 260 produtores e importadores. E no setor de conveniência, são 8.000 lojas espalhadas pelo Brasil.

“É nesse contexto que podemos verificar uma das maiores transformações pela qual o setor de combustíveis brasileiro deve passar, no caso, a decisão da Petrobras de vender parte de seu parque de refino. Por outro lado, temos preços na refinaria alinhados ao mercado internacional e a concorrência do produto importado, com a qual já estamos convivendo há um tempo. Se, por um lado, comemoramos essas tão esperadas transformações estruturais, por outro, devemos ter a cautela necessária para que essa transição ocorra considerando questões importantes, como o ajuste do arcabouço regulatório e as implicações tributárias, entre outras. E que tudo isso ocorra em um ambiente de previsibilidade, que garanta os investimentos necessários. É fundamental que nada coloque em risco a segurança do abastecimento do nosso mercado”, frisou Gadotti.

Ele destacou, ainda, que outro grande desafio é combater as práticas criminosas que afetam o setor, como a sonegação de tributos e a adulteração de combustíveis. “A sonegação fiscal em combustíveis já atinge R$ 7.2 bilhões ao ano, segundo estudo recente realizado pela FGV em parceria com a Plural. Acreditamos que a reforma tributária, que já começa a ser discutida no Congresso Nacional, é uma ‘oportunidade de ouro’ para corrigir este problema, incluindo, entre outras iniciativas, a uniformização das alíquotas de ICMS em todos os estados brasileiros. Se acabarem com a sonegação, todos ganharão”, ressaltou o presidente da Plural, uma das realizadoras da feira.

Especialista em lojas de conveniência é destaque no Fórum Internacional

Após a abertura do evento, foi realizada a primeira palestra do 14º Fórum Internacional de Postos e Serviços, Equipamentos, Lojas de Conveniência e Food Service, que acontece paralelamente à ExpoPostos & Conveniência. Michael Davis, vice-presidente de Serviços da NACS (Associação das Lojas de Conveniência e Postos de Combustíveis dos Estados Unidos), destacou vários cases de conveniência em diversos países, comentando sobre desafios a enfrentar e mudanças impulsionadas pelas novas tecnologias. “Pelo que pude ver, os postos e suas lojas de conveniência no Brasil estão aptos a competir com estabelecimentos de qualquer lugar do mundo. Os problemas que vejo aqui são desafios globais”, comparou o especialista.

Segundo Davis, para continuar atraindo mais público, as lojas precisam apostar cada vez mais na experiência “fluída”, ou seja, cada vez com menos atrito, ou empecilhos para o comprador. As tecnologias de pagamento sem interação com caixa são um exemplo, ao estilo do protótipo da Amazon, o Just Walk Out, em atividade em algumas cidades dos EUA – no entanto, de acordo com o americano, o modelo da gigante de tecnologia ainda não é rentável. Com mais sucesso, os pagamentos via celular já são realidade em várias partes do mundo.

Executivos e especialistas ressaltam a necessidade de mudar as regras de forma cautelosa

O painel Desafios e Oportunidades no Mercado de Combustíveis no Brasil, mediado pelo jornalista George Vidor, contou com a presença de Leonardo Gadotti, presidente executivo da Plural; Felipe Kury, diretor da ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis); Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infraestrutura); e Paulo Miranda, presidente da Fecombustíveis.

Kury abriu o debate dizendo que o momento atual traz desafios e oportunidades. “Toda a estrutura da cadeia, envolvendo questões de abastecimento, logística, aspectos tributários e concorrenciais enfrenta desafios e também oportunidades de reorganizar esse mercado, tornando-o ainda mais promissor. O engajamento do setor é fundamental. Já o regulador cumpre um papel importante ao garantir a previsibilidade e o equilíbrio, pois o Brasil busca competitividade”, destacou o diretor da ANP.

Já Adriano Pires fez uma análise realista da atual conjuntura. “Ao mesmo tempo que sou otimista, por que o governo está fazendo as privatizações que prometeu, além da reforma da previdência e a reforma tributária, também estou preocupado, porque parece que existem dois governos: um que quer trazer a concorrência de fato, e outro que quer trazer uma certa bagunça para o setor. Por exemplo, temos agora leis estimuladas pela greve dos caminhoneiros, está errado, pois, para mudar as coisas de verdade, não posso ser obrigado por um evento. Espero que o bom senso prevaleça, vamos tratar do principal e deixar o secundário para depois”, frisou Pires.

Durante o debate, Paulo Miranda enfatizou que o governo mantém uma elevada carga tributária sob uma pequena cesta de produtos, que incluem, entre eles, os combustíveis. “O Brasil tem meia dúzia de produtos que botam 70% do dinheiro que o governo arrecada. Energia elétrica, bebidas, combustíveis, cigarros e comunicação. Com essa meia dúzia, o governo quase enche o cofre”, destacou.

De acordo com Gadotti, é importante fazer as mudanças de forma estruturada. Além disso, ele destacou a necessidade de ficar atento ao mercado internacional. “Por uma sorte, estamos vivendo atualmente uma certa tranquilidade quando se fala em preço de derivados de petróleo, tendo em vista o câmbio e o dólar. Mas estamos vendo que o mundo não está vivendo seus melhores momentos em relações comerciais, essas quedas de braço entre China e Estados Unidos, tensões no Golfo Pérsico… a qualquer momento, uma crise do petróleo pode chegar, e como fica o preço na bomba? Infelizmente, no Brasil, temos esse péssimo costume, passou o problema, esquece. E o problema não está resolvido. A Plural e suas associadas têm discutido isso, temos planos e propostas. E fica o alerta: é nos tempos de paz que a gente se prepara para a guerra”, ressaltou o presidente executivo da Plural.

Mercado de lubrificantes tem potencial, mas também enfrenta desafios

Encerrando o primeiro dia de debates do evento, foi realizado o painel Lubrificantes: Perspectivas do Mercado Brasileiro, mediado por Ezio Antunes, do Instituto Jogue Limpo, com a presença de Leonardo Linden, executivo do setor de lubrificantes; Laercio Kalauskas, do Sindilub; Carlos Ristum, do Simepetro; e Francisco Nelson, superintendente da ANP.

Para Linden, o mercado de lubrificantes é extremamente relevante e tem potencial de crescimento. “Você não entra nesse mercado para brincar, entra para investir e desenvolver. É um setor muito competitivo. O Brasil tem uma característica interessante, ainda tem muitos produtos com base de óleo mineral, ou seja, há espaço para evolução tecnológica”, apontou o executivo.

Já Kalauskas destacou que a complexidade tributária também afeta o setor, provocando um problema concorrencial. Além desses desafios, os representantes do setor também apontaram que no mercado de lubrificantes ainda são encontrados muitos produtos em não conformidade. Questionado, o superintendente da ANP frisou que o país tem uma estrutura amadurecida de fiscalização, e que a agência sempre procura identificar e reprimir as irregularidades.

Por Alessandra de Paula