14/05/2018

Os 12 mais importantes aprendizados sobre Inovação e Empreendedorismo em Israel – Parte 2

Damos continuidade aos próximos seis tópicos que complementam a análise do que foi aprendido na recente viagem de estudos à Israel, promovida pelo Grupo GS&. No Momentum 761 foram publicados os seis primeiros tópicos dessa análise.

6. Gente tanto quanto tecnologia

Como deve ser sempre ressaltado, a tecnologia é um elemento essencial do modelo do país. Limitado em recursos e elementos naturais, Israel viu na tecnologia o passaporte para a sobrevivência e construção de seu futuro. Não só nas básicas questões envolvendo segurança e prevenção, mas como forma de criação de uma “indústria” pouco demandante de recursos naturais, mas geradora de empregos para profissionais diferenciados e tendo como resultado produtos, conceitos e serviços com alto valor agregado.

No momento, Israel já enfrenta um problema de necessidade de buscar ainda mais talentos para suprir as necessidades dos projetos em desenvolvimento e supre essa demanda com mais educação, mais pesquisa e mais capacidade de atrair profissionais e pesquisadores com maior talento e diferenciados em sua contribuição.

Apesar de tudo isso, os salários não são tão altos, pois o sistema existente atua de forma a “desestimular” os altos salários, a partir de uma equação de crescente tributação, à medida que cresce a remuneração.

Mas, é sempre importante lembrar que Educação, Saúde e Segurança são oferecidas a todos e com alto nível de excelência, ajudando a atrair, reter e desenvolver talentos no país.

7. A permanente construção do futuro apoiado na História

O histórico de conflitos e a saga da busca pelo território são parte integrante e fundamental da formação da nação que valoriza o que foi conquistado em tanto tempo de lutas e conflitos. Mas também ajudou a criar os elementos fundamentais para integrar o povo israelense ao mundo que contribui diretamente para o “funding” de muitas iniciativas, trazendo recursos para financiar pesquisas e o desenvolvimento de negócios.

As dificuldades históricas, muito distante de debilitar, ajudaram a forjar o caráter e atitude, criando um determinismo que é parte integrante da cultura e se manifesta nas mais diversas áreas, inclusive no ambiente empresarial e profissional.

A História é elemento presente e importante na construção do futuro, visto sempre com uma obra em permanente e rápido desenvolvimento e que cria um pragmatismo e uma resiliência que são outra marca registrada do comportamento da sociedade como um todo.

Vale lembrar aqui o pensamento de um dos líderes políticos do país, Shimon Peres (1923- 2016) segundo o qual Um homem sente-se tão velho quanto a sua idade e tão novo quanto seus sonhos.

Esse respeito com a História, mesclado com a obsessão para construir o novo se encontram em Israel, gerando uma resposta surpreendente, para não dizer inspiradora, para quem conhece um pouco melhor o país.

8. A consideração e o convívio com a diversidade formam o caráter

A diversidade é parte integrante da realidade desse país. Ela é cultivada, muito mais do que aceita, ainda que, em muitos aspectos, seja contraditória. Nas questões envolvendo diversidade sexual, o papel da mulher, a partir da figura da mãe, é uma forte referência para tudo. A mulher está no exército, tanto quanto o homem, ainda que com pequena diferença de tempo de serviço (para eles 3 anos e para elas 2 anos).

Ela atua profissional e empresarialmente, sem maior distinção.

Mas chama a atenção que o comportamento dos grupos LGBT é significativamente mais discreto do que temos visto em outros países, incluindo o Brasil. Sem nenhum juízo de valor, apenas a constatação.

A diversidade política é outro elemento de forte destaque, com 35 partidos. É uma situação quase similar ao Brasil, com teses e visões muito distintas convivendo com a realidade de mais de 2 milhões de pessoas que se negam, por convicções religiosas, a participar de atividades importantes para a formação do Estado, sobrecarregando o próprio Estado para sua manutenção, já que saúde, segurança e educação são responsabilidades assumidas e garantidas por ele.

Mas essa diversidade é aceita e considerada parte importante do tecido social e da formação do caráter das pessoas, que é trabalhado desde o começo da vida.

A troca de idéias, o debate e a contestação são elementos presentes e estimulados no dia a dia, começando pelos cursos regulares e evoluindo na vida pública e privada, ajudando a criar o modelo mental, contribuindo para a pesquisa, o estudo e o permanente aprendizado.

Aqui também vale recordar o pensamento do mesmo Shimon Peres, para quem É melhor ser controverso pelas razões certas do que popular pelas razões erradas, o que leva a um comportamento coletivo positivamente constestador como princípio.

9. O aprendizado com a experiência dos Kibutzim

Um elemento importante da formação de Israel, e, portanto, determinante na formação de sua realidade atual, é a figura das organizações representadas pelos Kibutzin, modelo cooperativo em sentido amplo que foi o embrião de muito do que se vê hoje na sociedade. Apoiada nas ideias vindas da Rússia, de onde emigraram muitos judeus para o território de Israel, a ideia foi aperfeiçoada, evoluiu e é até hoje praticada, sendo responsável pela produção de muitos conceitos e produtos.

Os kibutzin tiveram, e têm, papel importante na formação do caráter, das atitudes e do comportamento da sociedade pelos conceitos praticados em sua concepcão original, envolvendo responsabilidade individual, cooperação, propriedade compartilhada, decisão colegiada e estímulo à produção e ao desenvolvimento contínuo.

Na sua evolução, manteve a essência de sua proposta, porém se atualizou em muitos aspectos.

10. Talento e Capital tecem a teia da inovação

A realidade atual de Israel e seu modelo de construção do futuro pela inovação e espírito empreendedor são decisivamente influenciados pela combinação de Talento e Capital irrigando o crescimento econômico.

O talento é estimulado em todo o sistema educacional e mesmo no serviço militar obrigatório, onde os recrutas e oficiais são educados nos princípios do empreendedorismo e da inovação tecnológica, formando contingentes de empreendedores com forte embasamento técnico, mesclado com princípios, disciplina, método e rigor em relação à vida.

O capital é em parte suprido pelo próprio Estado que apoia projetos e iniciativas empreendedoras, algumas a fundo perdido, para proporcionar o clima virtuoso da pesquisa, estudo, iniciativa e até o erro, que faz parte da vida. Diferente de outras sociedades, até mesmo o erro é considerado parte importante da formação dos empreendedores, pois é assim que se estimula o inovar, tentar, prosseguir e perseguir objetivos.

A combinação de recursos financeiros disponíveis no mercado local e internacional, com baixa inflação e taxas de juros reais, como consequência, contribuem para criar o ambiente para o contínuo e crescente desenvolvimento empreendedor, irrigando todo o sistema, que se renova com novos projetos e conceitos, empregando cada vez mais pessoas, locais ou imigrantes, gerando uma corrente virtuosa de expansão e crescimento.

11. Uma sociedade inquieta, jovem, ao mesmo tempo madura, empreendedora, vigilante e inovadora

A combinação do difícil início com os constantes desafios enfrentados pelas questões territoriais, conflitos políticos e sociais, inclusive internos, forjaram uma sociedade com uma atitude inquieta, em permanente vigilância, e inovadora, como necessidade estrutural para enfrentamento dessa realidade.

Parece ser esse um dos ingredientes mais relevantes da formação e do desenvolvimento de Israel.

Ao invés de se subjugar às dificuldades, desafios e problemas, converteu tudo isso em energia vital para seu crescimento e expansão, criando um centro nervoso de empreendedorismo parametrado pela visão otimista e obsessiva pela expansão e transformação do ambiente.

Muito, sem dúvida, inspirado pela visão positivista de seus líderes, como aquela expressa também por Shimon Peres, segundo a qual Os otimistas e os pessimistas morrem exatamente da mesma maneira, mas vivem vidas muito diferentes.

Um elemento marcante em Israel é o fato de que o empreendedorismo está longe de ser aquele apenas juvenil, como é característico de muitos outros mercados.

Existe um empreendedorismo mais maduro, experiente e preparado, que se mescla com os jovens talentos que são formados pelos meios educacionais usuais, porém potencializados por aquele ensinado e desenvolvido no serviço militar obrigatório. Essa combinação tem como resultado um percentual maior e mais significativo de projetos que evoluem e se convertem em negócios respeitados e valorizados.

Pensar global não é ponto de chegada. É ponto de partida
Limitado em espaço territorial, recursos naturais e tamanho interno de mercado, tudo que se pensa em desenvolver ou produzir em Israel deve ter a visão da dimensão global para ser factível econômica e financeiramente.

Isso cria um modelo mental e empresarial particular, em que o mercado global não é uma opção futura, mas sim o ponto de partida para idealizar as iniciativas, que só podem ter sucesso se forem relevantes para alcançar escala e significância quando presentes em mercados internacionais.

A reflexão que se impõe

Uma visita à Israel, com o privilégio dos encontros, visitas e discussões que tivemos, impõe uma reflexão comparativa, sintética e pragmática.

Se foi possível criar um país com apenas 8,5 milhões de habitantes, com tantas dificuldades, limitado mercado interno, ausência de recursos e profusão de conflitos externos e internos, numa economia e sociedade respeitadas e admiradas por suas conquistas e contribuições à humanidade, quanto não poderia ser feito no Brasil?

Com abundância de recursos naturais, situação geográfica, ambiental e climática privilegiadas, um vasto território e um mercado de 206 milhões de pessoas, com idade média de 30 anos, o Brasil, repensado em sua organização, estrutura, modelo político e econômico deveria, necessariamente, ser olhado de uma forma absolutamente distinta, especialmente por seus líderes do setor privado.

E essa talvez seja uma das mais importantes reflexões, não necessariamente gratificante, para quem tem a oportunidade de comparar e discutir realidades.

Nota:

O Grupo GS& – Gouvêa de Souza, por seus negócios em eventos, GS&MD e Primetour, realizou no período de 29/4 a 5/5 o programa Retail Ignition em Israel, reunindo atividades nas mais diversas áreas, com visitas e encontros empresariais, profissionais, científicos e sociais que permitiram uma visão, a mais completa e atual possível, centrada nos temas Empreendedorismo e Inovação.

Os resultados marcantes do programa vieram do grupo diferenciado de dirigentes, executivos, profissionais e empreendedores que participou e da agenda de trabalho e troca de ideias que aconteceu intensamente no período. Os temas aqui expressos, mais uma vez de forma pretensiosa, foram compilados e organizados a partir da contribuição de todos.

As eventuais fragilidades são de nossa responsabilidade e as virtudes devem-se às contribuições do grupo.

Considerando o sucesso e os aprendizados do programa, e estimulado pela sugestões dos participantes, ele será repetido no período de 1 a 8 de setembro de 2018.

Fonte: Mercado e Consumo

Para ler a primeira parte, clique aqui.