19/09/2019

Piloto destaca a importância dos procedimentos de segurança para garantir um voo tranquilo

“Nunca foi tão seguro voar”, é o que diz o piloto Fabricio Duarte, aviador há 26 anos. Piloto com formação na Marinha e atualmente trabalhando na aviação comercial, ele conta na entrevista exclusiva a seguir um pouco de sua trajetória e traça um panorama da aviação brasileira atual no que diz respeito à segurança.

Plural: Há quanto tempo você é piloto? Como começou sua história com a aviação?

Fabricio Duarte: Sou aviador há 26 anos. Entrei no mundo da aviação por meio da Marinha do Brasil, onde ingressei no Curso de Aperfeiçoamento de Aviação para Oficiais em 1994. Foram muitas lembranças marcantes deste período, mas como mais importante cito meu primeiro pouso a bordo de um navio da Marinha do Brasil, coroando minha formação como Aviador Naval.

Plural: Já passou por algum perigo enquanto voava?

Fabricio Duarte: Sim, já passei por alguns perigos. O voo é uma atividade de risco. Como aviadores estamos sempre gerenciando os riscos e adotando medidas para reduzir seus impactos. Neste sentido, o treinamento e a preparação são fundamentais. Estudar muito, conhecer profundamente os procedimentos de operação de sua aeronave e estar sempre em dia com seu treinamento (em sala de aula e no simulador), faz com que as situações de perigo, que sempre podem ocorrer, sejam tratadas de maneira profissional e suas consequências mitigadas.

Plural: De acordo com o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), o índice de acidentes aéreos no Brasil é 2,0 acidentes para cada milhão de decolagens (2008-2016). Viajar de avião é seguro no Brasil? Mas aeronaves pequenas ainda caem muito. Por quê?

Fabricio Duarte: Nunca foi tão seguro voar. Os números da aviação comercial demonstram isso. Tivemos, em 2018, cerca de 46 milhões de voos comerciais (voos comerciais são as operações regulares de carga e passageiros) e o número de acidentes fatais da aviação mundial está em 0,36 a cada um milhão de voos ou um acidente fatal a cada três milhões de voos. Este número vem se reduzindo anualmente e embora 2018 não tenha sido tão bom quanto 2017 (ano mais seguro da história da aviação comercial), ainda são números excelentes. Em relação ao Brasil, pelas estatísticas do CENIPA, de 2009-2018, a aviação comercial (voos regulares) representa apenas 1,43% do número total, sendo que nenhuma fatalidade desde 2011.

As aeronaves menores têm a mesma segurança que as aeronaves maiores, desde que operadas adequadamente. O aviador devidamente treinado, cumprindo os procedimentos operacionais previstos, em um equipamento com a manutenção em dia, vai realizar um voo tão seguro em uma aeronave pequena quanto em uma grande. Infelizmente, não vemos este padrão se repetir com a frequência adequada na aviação geral. Assim, alguns fatores que podem explicar o maior número de acidentes são: descumprimento dos procedimentos de manutenção previstos, de acordo com os manuais dos fabricantes; menor experiência, horas de voo e treinamento dos pilotos; falta de familiaridade com as aeronaves; e não cumprimento dos procedimentos operacionais previstos, em todas as fases do voo, incluindo a preparação adequada (meteorologia, condições dos aeroportos, etc).

Plural: Quais são os procedimentos de segurança mais importantes feitos antes de um avião decolar? E durante?

Fabricio Duarte: Não há uma resposta única para estas perguntas. Todos os fabricantes de aeronaves estabelecem procedimentos padrão para serem cumpridos em todas as fases do voo, que podemos citar de forma resumida: na preparação, antes de entrar na aeronave, antes de partir os motores, antes de iniciar o taxi para a pista, antes da decolagem, depois da decolagem, na subida, ao chegar no nível de voo escolhido, antes da descida, antes de pousar, após o pouso, depois do taxi para o pátio e após o corte dos motores. Todos estes procedimentos são igualmente importantes e em caso de descumprimento, podem desencadear uma sequência de eventos que levem a um incidente/acidente.

Plural: Os acidentes aéreos são estudados para que não sejam cometidos os mesmos erros? Aprende-se com as tragédias?

Fabricio Duarte: Sim. O CENIPA é o responsável pela investigação de todos os acidentes aéreos que ocorrem na aviação civil brasileira. Ao final de cada investigação é emitido um relatório detalhado, explicando as causas de cada acidente, com recomendações a todos os que de alguma forma estiveram envolvidos ou contribuíram para que ele ocorresse (fabricante, operadores, mantenedores, controladores, aeroportos, etc.). Estas recomendações são controladas e cobradas pelas autoridades de aviação civil para evitar que ocorram novamente.

Plural: No que diz respeito ao combustível, quais são os cuidados que os pilotos devem tomar? 

Fabricio Duarte: Os pilotos devem estar sempre muito atentos à gestão do combustível durante o voo. A gestão de combustível em uma aeronave engloba as responsabilidades do piloto pela verificação, utilização, monitoramento e registro do combustível carregado na aeronave. Toda e qualquer consideração de combustível no solo, ou combustível consumido durante as operações terrestres (pré-decolagem e pós-aterrissagem), são, por definição, incluídas como parte do gerenciamento de combustível em voo.

Plural: É preciso ficar sempre atento ao nível de combustível, para garantir a segurança no voo?

Fabricio Duarte: Sim. A má gestão de combustível durante o voo pode levar à incapacidade de concluí-lo conforme planejado. A complacência pode resultar na determinação tardia de um vazamento de combustível, enquanto o desvio intencional do perfil de voo planejado pode resultar em um consumo de combustível muito além do previsto. No pior dos casos, a má gestão de combustível pode levar à exaustão de combustível e pouso forçado com o potencial de perda de aeronave e perda de vida.

Plural: Como as novas tecnologias podem contribuir para a segurança aérea? O que existe de mais moderno sendo utilizado? Quais as perspectivas para o futuro?

Fabricio Duarte: Os fabricantes de aeronaves e equipamentos aeronáuticos estão sempre buscando desenvolver novas tecnologias que melhorem a segurança, desempenho e eficiência nas operações. Elas podem contribuir para a segurança, aumentando o alerta situacional das tripulações (capacidade de entender melhor o que está acontecendo), melhorando a automação dos sistemas das aeronaves, assim como sua eficiência. Hoje, na área de segurança de aviação, podemos citar alguns exemplos de tecnologias em uso que trouxeram mais segurança para nossos voos: EGPWS (Enhanced Ground Proximity Warning Systems), que alerta os pilotos sobre a proximidade da aeronave ao solo; ROPS (Runway Overrun Prevention System), responsável por calcular as distâncias mínimas de aterrissagem no voo e parada em terra e as compara com as distâncias de aterrissagem disponíveis em tempo real; ACAS (Airborne Collision Avoidance System), que alerta os pilotos a respeito da presença de outra aeronave e o risco de colisão aérea; ADS-B (Automatic Dependent Surveillance – Broadcast), que consiste em uma tecnologia de vigilância cooperativa para rastreamento de aviões. As aeronaves determinam sua posição através GNSS (satélite) e periodicamente transmitem esse sinal através de uma frequência de rádio. Para o futuro: realidade aumentada, inteligência artificial, aeronaves não tripuladas e novas tecnologias de navegação aérea são algumas das inovações que irão mudar nossa indústria.

Por Alessandra de Paula